"Sempre imaginei que o paraíso seria algum tipo de biblioteca" - Jorge Luís Borges
quarta-feira, 19 de julho de 2023
domingo, 16 de julho de 2023
HISTÓRIAS DA VIDA CLÌNICA - 7
HISTÓRIAS DA VIDA CLÌNICA - 7
O galo
O Serviço Médico à Periferia que nos levou a terras e
vivencias desconhecidas foi uma aprendizagem ímpar que eu julgo que continua a
fazer falta aos jovens médicos.
Nos anos setenta as nossas vilas e aldeias do interior eram
muito mais povoadas, a maioria analfabetos, mas com uma simplicidade e bondade
de caracter que a cada momento nos surpreendia.
Os que vivem nas grandes cidades e não têm contacto com o
povo não compreendem o modo de viver dum povo castigado com decisões sempre
hostis e erradas ditadas por interesses mesquinhos que vão despovoando o nosso
interior afugentando os médicos deixando-os outra vez entregues a si próprios
escolas longe hospitais longe desemprego um convite permanente ao abandono.
A relação médico/doente era bem diferente do que é hoje -um
novo doente era um potencial amigo ainda não havia utentes e muito menos
clientes as campanhas anti-médico ainda não tinham começado.
A aldeia onde fiz consulta durante um ano tinha muito poucos
transportes públicos e o carro do médico servia também para transportar doentes
que precisavam de internamento ou para se deslocarem à Vila.
Um dia uma senhora de 50 e poucos anos com uma infecção
respiratória com mais de uma semana de evolução e febre alta veio à consulta
,como precisava dum RX e análises avisou a família que podia ter de ficar
internada e no final da consulta levei-a ao Hospital fiz um RX -eramos nós que
fazíamos os RX não havia técnico- fez análises confirmou-se a suspeita clinica
de pneumonia ficou internada dois dias no dia da alta passei no Hospital de
manhã e levei a doente para casa que era na aldeia onde fazia consulta.
Na Consulta seguinte Curada da Pneumonia disse-lhe -pronto
agora só necessita de voltar à consulta dentro de 15 dias. Dr estou-lhe muito
agradecida por tudo o que fez por mim e na próxima consulta vou trazer-lhe um GALO
muito bonito que tenho lá no meu quintal- Deixe estar o galo que não tenho
capoeira para o guardar-não, faça uma canjinha que é muito boa dum galo
daqueles dá muita saúde.
Na consulta seguinte confirmou-se que a tosse residual já
tinha passado e estava sem queixas.
O Dr Hoje já vinha a contar com o GALO mas olhe adoeceu um
filho meu e tive de o matar para fazer uma canjinha , trago-lhe dois pombinhos,
não é a mesma coisa, mas também fazem uma canjinha muito boa.
Agradeci naturalmente
a oferta, mas fiquei mais maravilhado com a sinceridade e simplicidade com que
honestamente se justificou, os pombos foram oferecidos a um pombal que havia no
Monte onde residíamos.
A doente e a sua família ficaram naturalmente nossos amigos.
Juramento de Hipócrates
Versão de 1983
A Saúde do meu Doente será a
minha primeira preocupação.
Manterei por todos os meios ao
meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.
A.M.
sexta-feira, 30 de junho de 2023
HISTÓRIAS DA VIDA CLÍNICA - 6
Histórias da vida clínica - 6
As
Instalações degradadas
Os Hospitais têm em geral instalações muito degradadas.
Os Hospitais Civis de Lisboa ocupam Edifícios Centenários que pertenceram a antigos Conventos, estão em remodelação permanente, em regra pequenas obras que nada resolvem, e com o passar do tempo vamo-nos alheando desta situação humilhante em que trabalhamos.
A nossa preocupação é
a de melhorar os cuidados médicos, realizar uma medicina de excelência,
intervenções cirúrgicas de ponta iguais às que se realizam nos melhores Hospitais do Mundo e
vamos esquecendo que as instalações estão cada vez mais degradadas.
Claro que quando vamos Estagiar no Estrangeiro encontramos
uma diferença abismal, em tudo, principalmente na Organização e na Qualidade
das Instalações.
A maioria dos nossos
Blocos Operatórios não tem as condições exigidas hoje em qualquer País da Europa,
os gabinetes de consulta têm as paredes e as janelas a evidenciar degradação
avançada.
Na verdade, no dia a dia, vamos esquecendo tudo isto e trabalhamos como que anestesiados, orgulhosos do nosso trabalho, foi assim durante muitos anos, claro que na ultima década as coisas pioraram muito e cada vez se passou a ouvir mais entre os médicos -estou a contar os dias para me ir embora.
O descontentamento alastrou fomos despindo a camisola entrámos numa degradação
sem retorno.
Mas nos anos noventa a vontade era soberana estávamos
orgulhosos do nosso trabalho e do nosso Hospital.
Num dia normal de consulta
chega-nos um doente operado há alguns meses ,satisfeito com os
resultados da Intervenção Cirúrgica, vinha mais para agradecer do que para ser
consultado. Como residia numa zona com Instalações Termais afamadas e tinha uma artrite em tratamento recomendei-lhe que poderia aproveitar as termas para ir tratar a sua poliartrite
-e a resposta foi imediata:- Dr as Termas estão muito degradadas ,aquilo está uma
desgraça, olhe assim como as Instalações aqui do Hospital as paredes estão
assim como estas que o Sr Dr tem aqui no seu gabinete.
Acordei de repente do meu sonho cor-de-rosa, pensei nestas
palavras durante muito tempo e senti-me naturalmente amargurado e humilhado com
tão dura realidade.
A.M.
sexta-feira, 23 de junho de 2023
GENÉTICA PARA TODOS
Heloísa G. Santos e André Dias Pereira
Poderemos compreender as principais
potencialidades e limitações dos conhecimentos hoje adquiridos em Genética
Humana?
O que é o ADN? O que são testes genéticos? E testes
genómicos?
Podemos alterar os nossos genes e os do nosso bebé?
Poderemos contar com medicamentos personalizados e um
sistema público de saúde que, com base no conhecimento das características do
genoma de cada um e recurso a algoritmos, nos irá proporcionar uma medicina de
total rigor e precisão?
Qual será o preço social e humano que poderemos ter de
pagar por estas mudanças tão radicais?
Que papel desempenham, neste contexto, a ética e o
direito?
No nosso país, são escassas as publicações que procuram
dar resposta a estas questões candentes no contexto da actual 4.ª Revolução
Industrial. Na esperança de ajudarem a suprir essa lacuna, os autores convidam
o leitor a acompanhá-los numa fascinante viagem, desde a descoberta das células e dos cromossomas até às mais recentes
inovações na área da genética humana.
Da contracapa
Índice
PARTE I
DE MENDEL À REVOLUÇÃO GENÓMICA DO SÉCULO XXI
Heloísa Santos
Preâmbulo
1. Generalidades
2. Conhecimentos já adquiridos através da investigação e da prática clínica
3. Características especiais dos testes genéticos
4. Glossário
Introdução
A descoberta do genoma
Principais bases científicas
Da sequenciação do genoma aos nossos dias
Reflexões finais — E agora?
Bibliografa e comentários
PARTE II
GENÉTICA HUMANA: O
OLHAR DE UM JURISTA
André Dias Pereira
Introdução
Direitos Humanos e Direitos Fundamentais: origem, organizações
internacionais e documentos fundamentais
A eugenia no século xx e os riscos do século xxi
Consentimento informado e genética
Sigilo médico, privacidade e confidencialidade
Direito a não saber
Os dados genéticos no novo regulamento geral sobre a proteção
de dados
Discriminação — Trabalho e seguros
Desafios I — Biobancos e bases de dados de perfis de ADN —
André Pereira e Eduardo Figueiredo
Desafios II: Terapia génica — André Pereira e Eduardo Figueiredo 159
Desafios III: Medicina personalizada André Pereira e Eduardo
Figueiredo
Bibliografa
Legislação relevante
“ um mundo em que apenas
uma superelite reduzidíssima fosse capaz de compreender a ciência e a
tecnologia avançadas e as suas aplicações seria, do meu ponto de vista, um
mundo perigoso e limitado”.
Stephen Hawking
Os Autores
Heloísa G. Santos é Geneticista Clínica e Doutorada em Genética Médica pela
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). Primeira Directora do
Serviço de Genética Médica do Hospital S. Maria (2000-2004). Professora
Convidada de Genética Médica da FMUL (1991-2004). Membro do International
Committee of Bioethics da UNESCO (2002-2006). É sócia Honorária e actual
Presidente da Comissão de Bioética da Sociedade Portuguesa de Genética Humana
da qual foi fundadora e a primeira Presidente. É membro da British Society for
Genetic Medicine, da European Society of Human Genetics e da Tuberous Sclerosis
Association (Honorário). Além de outras distinções, recebeu, em 1991, o Prémio
Nacional de Genética.
André Dias Pereira é Mestre e Doutor em Direito Civil pela Universidade de
Coimbra. Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e
Director do Centro de Direito Biomédico da mesma universidade. Presidente da
Comissão de Ética da AIBILI. Membro da Comissão de Bioética da Sociedade
Portuguesa de Genética Humana. Fellow do European Centre of Tort and Insurance Law (Viena). Foi (2012-2016)
membro da Direcção da Associação Mundial de Direito Médico e é, desde 2015,
Membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.
Edição da Gradiva
quinta-feira, 8 de junho de 2023
JOÃO TABORDA - UM FOTÓGRAFO HUMANISTA
João Taborda
Nascido em Lisboa a 19 de Julho de 1950.Conceituado pneumologista, João Taborda revelou desde muito cedo uma grande paixão e um talento especial para a Arte Fotográfica. Realizou mais de 40 exposições fotográficas a nível nacional e internacional. Recebeu inúmeras distinções, sendo as mais recentes:
2003 – AFIAP, “Artist by the Fédération International de L’Art Photographique” (FIAP)
2012 – EFIAP, “Excellence Artist by the Fédération International de L’Art Photographique” (FIAP) 2013 – Distinção PPSA pela “Photographic Society of America” (PSA) (fotografia do ano)
2015 – Título Hon.FtGM (Honoris Fotogram) pelo “Fotogram Art Studio”, Belgrado
2016 – Título MIVAF (Master Indian Visual Art Foundation) – 3.º Lugar, Classificação Mundial da PSA - Who´s Who, Fotojornalismo
2017 – Globo de Ouro (Pangea de Ouro), Siena Photo Awards, Itália (entre mais de 160 países e dezenas de milhares de fotografias)
2018 – Título International Ambassador and Photographic Exchange, Guangxi, China
– “Grande prémio de fotografia de 2018”, Polónia, PhotoArtMédica
2019 – Distinção MPSA (Master - Photographic Society of America)
– Distinção GPSA (Gold – Photographic Society of America).
Ganhou mais de 800 prémios e distinções, dos quais mais de 300 medalhas de ouro, o que por certo o coloca na posição de ser, provavelmente, o português com mais prémios obtidos a nível internacional, dos quais se destacam:
– Medalha de Ouro PSA (Sociedade Americana de Fotografia) por mais de 40 vezes;
– Medalha de Ouro FIAP (Federação Internacional de Arte Fotográfica) por mais de 30 vezes;
– Medalha de Ouro UPI/GPU (União Global de Fotógrafos) por 12 ocasiões.
Foi júri de múltiplos salões internacionais de fotografia.
Era Artista de Excelência da Federação Internacional de Arte Fotográfica (EFIAP) desde 2012.
Em Janeiro de 2019,foi-lhe sido atribuído o titulo de Master da Sociedade Americana de Fotografia(Master PSA)
Sentia-se feliz por ter muitas das suas fotografias nos vários serviços do Centro Hospitalar Lisboa Norte (Hospital Pulido Valente e Hospital de Santa Maria).
A 4 de Novembro de 2019,foi inaugurada, com a sua presença no salão nobre do Hospital do Mar, a sua derradeira exposição que seria apresentada,no mês seguinte,na Biblioteca Municipal de Sesimbra mas à qual já nâo pode comparecer.
Pelo seu contributo como médico, fotógrafo e cidadão exemplar, e uma genuína paixão por Sesimbra, a Câmara Municipal decidiu atribuir-lhe o Medalhão da Vila de Sesimbra na cerimónia de inauguração.
Dia 29 de Janeiro de 2020, cinco dias após o seu desaparecimento, foi distingido pelo Rotary Clube de Sesimbra como “Profissional do Ano de 2019 "pela sua carreira fotográfica e em Novembro de 2021 foi lançado o livro "João Taborda.Um fotógrafo humanista"concretizando-se,
No decurso do ano de 2022,já pós-pandemia,foram efectuadas inúmeras exposições,sendo o público numeroso e assíduo!
segunda-feira, 29 de maio de 2023
A MAIS BREVE HISTÓRIA DE INGLATERRA
James Hawes
O Autor
James Hawes é autor de seis romances. Speak for England (2005) previu o Brexit; foi adaptado à televisão por
Andrew Davies. O seu livro mais recente, A Mais Breve História da
Alemanha, é um best Zeller internacional. Trabalhou recentemente no documentário
da BBC The Making of Us: The History of British Creativity.
Edição da LeYa – D. Quixote
quarta-feira, 17 de maio de 2023
O MÁGICO DA LUA
Rui Sobral de Campos
Neste romance, breve e
vertiginoso, vive-se o drama de um médico enamorado da sua paciente,
mortalmente enferma, e a luta inglória da medicina contra o progresso da
doença. Rui Sobral de Campos opta por um estilo descarnado e seco de narrativa,
apenas ornado, aqui e ali, de pormenores técnicos ou de enquadramento familiar
que mais não fazem senão obrigar o leitor a tornar-se, ele próprio, um
espectador lúcido da angústia de personagens impotentes.
Os dois principais protagonistas parecem assumir,
a princípio, uma pura atitude agnóstica, excluidora de qualquer dimensão
metafísica, não enxergando na morte senão uma estrada em direção ao Nada
absoluto.
Apesar disso, e é esse o momento mais belo da
obra, uma certa forma de redenção é encontrada no regresso ao realismo
fantástico da infância corporizado na paisagem encantada da Fonte Benémola,
lugar onde aparece o Mágico da Lua, aquele que propicia a realização dos sonhos.
Sinopse
Rui Sobral de Campos é
médico anestesista com competência em medicina da dor.
Trabalhou em hospitais públicos e privados da área
da Grande Lisboa.
Nota de rodapé
Mais um magnífico livro, que recomendamos, do nosso colega Rui Sobral de Campos, aliás, esta foi a sua primeira obra já esgotada e agora revista e reeditada.
A. M.
Editado pela Althum.com
sábado, 13 de maio de 2023
HISTÓRIAS DA VIDA CLÍNICA - 5
Haja
Deus!
O episódio que descrevo a seguir, ocorreu comigo há
cerca de quarenta anos na mesma urgência do hospital concelhio, onde vivi solitário
outros casos inesquecíveis.
- Haja Deus! – foram as primeiras palavras da doente.
Era domingo, esta senhora encontrava-se tranquilamente
a almoçar em casa na companhia do marido, quando ao mastigar um pedaço duro de
carne, ficou subitamente com a mandíbula imobilizada e dolorosa, o que motivou
a sua vinda imediata à urgência.
À entrada, apresentava-se com a face assimétrica, de
boca aberta sem conseguir falar, babando-se copiosamente e de olhar assustado. A
surpresa era grande, pois era a primeira vez que tal lhe tinha acontecido.
O que se tinha passado? A extremidade superior do osso
maxilar (inferior) do lado esquerdo, tinha saído da sua cavidade natural, o que
provocou um bloqueio da articulação.
Palpei cuidadosamente as articulações dos dois lados
do rosto. Naquele hospital não dispunha do apoio de Radiologia. Ponderei
rapidamente a situação, e decidi-me por tentar sem demoras resolver ali mesmo o
problema – reduzindo a luxação. Ia medir forças com um músculo fortíssimo o – masséter
- para restituir a extremidade do osso à sua localização original. Prescrevi um
relaxante muscular e um analgésico, esperei pelo efeito e com toda a força
pressionei para baixo sobre os dentes de trás, empurrei o queixo para cima, e
senti nos dedos o ressalto da entrada do osso na cavidade.
E é quando a doente solta a exclamação com que começo
estas linhas:
- Haja Deus! - certamente que não estava a referir-se
a mim.
Escusado será dizer que teve alívio imediato e saiu
felicíssima com o marido de regresso a casa.
E eu, ainda não acreditava no que tinha conseguido
fazer, era a primeira vez que me confrontava com uma luxação temporo-mandibular
e resolvia a situação sozinho.
Curiosamente, passados um ou dois meses surge-me outra
doente com o mesmo problema e eu muito confiante, não hesitei em tentar a mesma
manobra, tentei, tentei, tentei…. e o osso permaneceu imóvel indiferente aos
meus esforços, pelo que me decidi pela transferência da doente para a urgência
de Cirurgia Maxilo-Facial do Hospital de S. José, em Lisboa.
A isto chamo: a sorte do principiante.
C.F.
terça-feira, 9 de maio de 2023
A HERDADE DO MOCHO
Rui Sobral Campos
“A Herdade do Mocho” é uma obra de ficção, mas que retrata de forma realista o nascimento e a expansão de uma Herdade situada numa das zonas mais pobres e secas do Alentejo.
A Herdade do Mocho vai crescendo ao longo das gerações de uma família, sobrevivendo aos infortúnios quer das personagens, quer do tempo ou dos regimes políticos.
A obra está repleta de personagens fortes, cativantes, bem construídas, que vão passando o legado da Herdade ao longo das gerações; todas acabam por ter um papel importante nas decisões que levam ao crescimento da Herdade e da sua manutenção na família.
O autor não se limita a contar a edificação da Herdade do Mocho, nem tão pouco as aventuras e desventuras dos vários familiares dos proprietários da Herdade, faz também uma reflexão sobre várias temáticas importantes, tais como o racismo, a homossexualidade, relações incestuosas, a mulher forte e determinada, a comunidade cigana existente no Alentejo e toda a população pobre, sem recursos e analfabeta, do Alentejo.
Ao mergulhar nestas páginas, o leitor irá conhecer as várias gerações da família que habitaram a “Herdade do Mocho” e fará uma viagem pela História de Portugal (social, económica e política). No final, ficará tentado a percorrer o Alentejo em busca desta Herdade, querendo entrar dentro das suas portas ansiando encontrar alguma das suas personagens.
O Autor
Rui Sobral de Campos nasceu em 1941 no Porto. Licenciado em Medicina e em História, trabalhou em hospitais públicos e privados de 1970 a 2012.
Publicou quatro romances, entre os quais Em Nome de Meu Pai distinguido com o Prémio Fialho Almeida Ficção 2019 da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e A Informadora – Crónica de anos sombrios.
Na sua obra literária, Sobral de Campos procura não deixar que o iníquo Estado Novo caia no esquecimento, visto que as novas gerações, sobretudo as nascidas pós 25 de Abril, têm legitimamente outras preocupações.
Outros temas que lhe interessam têm a ver com as desigualdades sociais que manietam Portugal, bem como a lenta subida do elevador social. A Herdade do Mocho é o seu quinto livro.
Editado pela Europa Editora
terça-feira, 2 de maio de 2023
HISTÓRIAS DA VIDA CLÍNICA - 4
605 Forte
Com poucos
anos de exercício da profissão médica, no princípio dos anos oitenta, trabalhei
aos fins de semana na urgência de um hospital concelhio.
O Serviço
Nacional de Saúde já criado, estava a dar os primeiros passos na sua implementação.
A equipa da
urgência era mínima: um médico e uma enfermeira, e os meios postos à nossa
disposição eram rudimentares. A oferta de cuidados de saúde no concelho era
pouca, para uma população numerosa com fracos recursos.
Num desses dias de
trabalho intenso, quando me encontrava a observar um doente, sou interrompido
por uma algazarra vinda da entrada da urgência, e de imediato, a sala onde eu estava
é invadida por várias pessoas a acompanhar um jovem muito agitado, que ao
entrar no gabinete gritava repetidamente: - Dr. estou perdido por amor de Deus salve-me a vida,
salve-me vida! -, como se eu estivesse investido de poderes divinos.
Não era difícil perceber,
pelo cheiro característico que dele emanava o que tinha acontecido: tinha
ingerido 605 forte, um veneno muito potente utilizado na agricultura e pelos suicidas em meio rural. Este produto deixa um rasto de destruição tal nos
órgãos por onde passa, para mim só comparável à imagem de uma corrente de lava.
Senti dramaticamente que este
jovem não tinha desistido e eu pouco tinha para lhe oferecer, mas tudo faria para
o manter vivo. Tenho para mim, desde sempre, que praticar Medicina sem compaixão não é ser médico, será outra coisa qualquer.
Este trabalhador rural
tinha escolhido a cabana das alfaias agrícolas da propriedade onde trabalhava
para preparar e ingerir o veneno. Assim o fez, e logo se arrependeu e correu a
pedir socorro aos seus vizinhos que o trouxeram ao hospital.
O meu objetivo era fazer
chegar este homem vivo à unidade de cuidados intensivos mais próxima, no caso a
U.U.M. do Hospital de S. José, que distava 40-50 km do local de onde nos
encontrávamos.
Além de outras medidas de
suporte dirigidas às manifestações respiratórias, era vital estabilizar o ritmo
de um coração que teimava em parar. Não dispunha sequer de um
electrocardiógrafo. Recordo-me de lhe ter administrado várias vezes atropina
para acelerar o ritmo cardíaco e criar as condições mínimas para a sua evacuação.
Chamámos os bombeiros,
que ao chegarem nos disseram que tinham trazido a ambulância mais veloz que lá
tinham – atingia os 150 Km/h!
À saída pedi-lhes duas
coisas: que não se matassem pelo caminho e no regresso passassem lá pelo
hospital, para me informarem se o doente tinha chegado vivo aos cuidados
intensivos.
A sala onde tínhamos
estado a assistir ao doente era grande, mas o cheiro que o veneno deixou era de
tal modo intenso que teve de ficar sem poder ser utilizada, com as janelas abertas, o resto do período daquela
urgência.
Ao fim de algumas horas,
apareceram ao fundo do corredor os dois jovens bombeiros sorridentes.
- Dr. ele chegou vivo! - disseram-me felizes. Abraçámo-nos e
agradeci-lhes a ajuda que me tinham dado e principalmente ao doente.
Naquela corrida de
estafetas contra a morte, tínhamos cumprido a nossa parte.
No meio daquela tragédia,
ficaram-me perguntas sem respostas: que sofrimento estaria por detrás de tudo
aquilo que vivenciámos? que personalidade era aquela? que razões teriam levado
aquele jovem a um gesto tão definitivo, seguido de um arrependimento tão
imediato?
Estes desastres humanos a
que os médicos estão tantas vezes expostos, deixam marcas que os acompanham o
resto da vida.
C.F.
quarta-feira, 19 de abril de 2023
HISTÓRIAS DA VIDA CLÍNICA - 3
O
DÉDÉ
No início da década de
oitenta e durante alguns anos, trabalhei aos fins de semana na chamada urgência
de um hospital concelhio da margem sul do Tejo.
A equipa de serviço era
composta pelo médico e pela enfermeira e os períodos de trabalho eram de 20 ou 24 horas. Numa “boa urgência” eram vistos 50 doentes,
numa má perto de 90.
As famílias aproveitavam
os domingos à tarde para virem com as suas crianças à consulta. Era um período
de grande crise económica e social na península de Setúbal, com fábricas a
encerrar a toda a hora e naturalmente muito desemprego e fome. Algumas
prescrições que passei foram aviadas na cozinha do hospital, em vez de o serem
na farmácia.
E é numa dessas tardes
quentes e luminosas, com a sala de espera a abarrotar de gente, em que eu me
encontro tranquilamente a observar um doente, que entra pelo gabinete
visivelmente assustada, a enfermeira avisando-me que lá fora estava o Dédé *
que queria ser visto pelo médico. Desconhecia quem era o indivíduo, mas
rapidamente apurei que se tratava de alguém com um passado muito violento, que
tinha sido recentemente libertado após o cumprimento de uma longa pena de
prisão.
- Se o homem quer ser visto
pelo médico, que entre. – disse para a enfermeira, com alguma apreensão.
Entretanto, a sala de espera há pouco cheia e ruidosa estava agora vazia e
silenciosa, e … o Dédé lá entrou para o gabinete fazendo-se acompanhar de um
guarda-costas corpulento, em que se adivinhava uma pistola à cinta. O nosso
doente que teria a minha idade, pouco mais de trinta anos, aparentava ser mais
velho com cicatrizes num rosto de pele ressequida. A consulta iniciou-se com
normalidade, comigo a ouvi-lo com empatia e atenção contar as suas queixas; de
seguida passei ao exame físico - mais cicatrizes no tórax - que pela sua
localização só poderiam ter resultado de ferimentos superficiais. Recordo-me de
ele ter comentado, que era a primeira vez que alguém o auscultava. A situação
não tinha gravidade e a consulta encaminhou-se para o fim em ambiente ameno,
com a prescrição de um analgésico.
O Dédé reconhecido, não
quis sair sem se me dirigir dizendo qualquer coisa como isto: “andam por aí
alguns.... que só se não pudesse…. mas os médicos eram uns gajos porreiros”. E
concluiu: “se algum dia alguém fizesse mal a mim ou a um dos meus ou me
roubassem o carro, que passasse pela leitaria X, que se ele não estivesse lá, alguém
estaria por ele que trataria do assunto”.
E lá se foi com o seu
guarda-costas silencioso, deixando-me atordoado, tentando adivinhar os dramas que
se terão atravessado na vida daquele homem, quanta infelicidade terá sofrido e
quanta desgraça terá provocado.
Esta pequena história não
termina aqui.
Um ano após este
episódio, estava eu num quiosque a passear os olhos pelas primeiras páginas dos jornais, quando
deparo com o seguinte título em letras garrafais de um jornal sensacionalista:
“Dédé morto a tiro em luta entre grupos rivais”.
E lá perdi para sempre o
meu anjo (ou demónio) da guarda, que não queria mais de mim do que um pouco de
atenção.
*Dédé - alcunha fictícia
C.F.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
LIVROS - TUDO O QUE É PRECISO LER
CRISTIANE ZSCHIRNT
Um livro que
recupera o prazer das grandes obras culturais e as delícias do conhecimento. No
centro da nossa cultura estão os livros, que guardaram o saber do Ocidente
durante séculos, transmitindo-o às gerações seguintes. Os livros mudaram a
marcha da história universal, abriram novos horizontes e disponibilizaram a um
vasto público os conhecimentos de filósofos, cientistas, poetas e artistas.
Christiane Zschirnt resgatou, do fundo das estantes, uma série de obras
imprescindíveis que recolhem o saber do mundo ocidental. Mas não se limitou a
elaborar uma lista de livros; pelo contrário, tirou-os da prateleira e
expurgou-os do academicismo que os torna menos atractivos aos olhos de alguns
leitores. Desta forma, a autora democratizou a cultura, tornando-a acessível a
todos. "Livros: Tudo o que é Preciso Ler", apresenta uma série de
livros que nos ajudem a compreender a complexidade da sociedade moderna: da
Bíblia a Harry Potter, passando por Leviatã; de Shakespeare a Beckett, passando
por Balzac; de Camões a Saramago, passando por Fernando Pessoa. Por isso, a
autora não os classificou cronologicamente, mas por 15 temas que dizem respeito
à nossa vida quotidiana, como o amor, a política, o sexo ou a economia. Em
suma, trata-se de uma bússola para navegar no mundo dos livros, com prólogo de
Dietrich Schwanitz, autor de "Cultura: Tudo o que é Preciso Saber".
A AUTORA
Cristiane Zschirnt, nasceu em 1965 em
Bremen na Alemanha. Estudou Filosofia Inglesa, História de Arte e Filologia Alemã
em Hamburgo. Doutorou-se em Zurique e é professora na Universidade de
Hamburgo. Publicou em 2001 Shakespeare-ABC
EDITADO PELA CASA DAS LETRAS